terça-feira, 24 de julho de 2012

CARREGO O PESO DA LUA



Carrego o peso da lua,
Três paixões mal curadas,
Um saara de páginas,
Essa infinita madrugada.

Viver de noite
Me fez senhor do fogo.
A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não.
Esse, eu mesmo carrego.

Paulo Leminski

segunda-feira, 23 de julho de 2012

ANOITECER



Amiudam-se as partidas...
Também morremos um pouco
no amargor das despedidas.


Cais deserto, anoitecemos
enluarados de ausências.

Helena Kolody,
in Infinito Presente

sábado, 21 de julho de 2012

DESENHO



Árvore da noite
Com ramos azuis
Até o horizonte.

Estendi meus braços,
E apenas achei
Nevoeiros esparsos.

O resto era sonhos
No profundo fim
Da vida e da noite.

A memória em pranto
Os ramos azuis
Fica procurando

E de olhos fechados
Vejo longe, sós,
Meus alados braços.

Ó noite, azul, árvore ...
Suspiro a subir
Muro de saudade!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

sexta-feira, 20 de julho de 2012

CHEGARAM AS ESTRELAS



As estrelas chegaram úmidas
E suas frias pétalas pousaram
No meu rosto seco.
As estrelas chegaram trêmulas.
Parecian flores que o vento esfolhara,
Da noturna árvore.

Murado e exausto,
Que consolo encontro nas estrelas
Que chegaram de repente!
Falaram-me de suas viagens,
Das regiões nuas que atravessaram,
Das fontes que cantam pelos espaços,
Das vozes que se ascendem em caminhos nunca vistos,
Na figura de Aglaia adormecida no céu,
E no sorriso de infância que na sua face flutua.
As estrelas chegaram loucas dos seus infinitos silêncios.
E falavam incessantemente.
Foi o orvalho de suas asas
Que molhou meus olhos!

Augusto Frederico Schmidt
In Um século de poesia

terça-feira, 17 de julho de 2012

A LUA BRANCA



A lua branca
brilha no bosque.
De ramo em ramo,
parte uma voz que
vem da ramada.

Oh! bem-amada!

Reflete o lago,
como um espelho,
o perfil vago
do ermo salgueiro
que ao vento chora.

Sonhemos, é hora...

Como que desce
uma imprecisa
calma infinita
do firmamento
que a lua frisa.

É a hora indecisa...

Paul Verlaine

domingo, 15 de julho de 2012

O LUAR E O CHAFARIZ


O LUAR E O CHAFARIZ
(Tasso da Silveira)

No chafariz o tênue gorgolejo
era pura magia. O encantamento
enchia a clara noite e, lento, lento,
iam sacudindo os sonhos, e o Desejo.

Mas isto foi no efêmero momento.
De há muito a voz calou-se. Agora vejo
pedras tombadas, seca a fonte, e o adejo
de asas de sombra e de aniquilamento.

E o luar, que ao toque mágico da antiga
cantiga da água, era também cantiga
fluindo, fresca e feliz, do céu profundo,

nesta hora triste e trêmula da vida,
condensado em lembrança dolorida,
é silêncio infinito sobre o mundo.

Encantamento


Encantamento
(Tasso da Siveira)

A tarde jogou os seus sete véus luminosos
sobre a montanha,
e ficou toda nua dançando
com sombras de crepúsculo
a escorrerem-lhe, suaves, pela pele dourada...
...e ficou toda nua dançando
na campina
ao som da harpa encantada do silêncio...

Lua...


Lua...
(Tasso da Silveira)

Lua! Canção de mágoa, triste endeixa
de saudade, no azul do céu perdida...
Companheira dos que vão sós na vida,
dos que não têm quem lhes escute a queixa...
O teu frio palor na alma nos deixa
a tristeza profunda e comovida
de quando a alguém a eterna despedida
vamos levar, e um túmulo se fecha...
Errante e só pela infinita altura,
há milênios que vens, ó Lua triste,
iluminando a humana desventura..
E parece que em ti se congelaram
todos os ais de súplica que ouviste
e a ânsia dos olhos todos que te olharam...

À BEIRA DA TARDE


À BEIRA DA TARDE
(Adriano Wintter)

Confinado a preencher
a vida com palavras, vivê-la
apenas em parte
e, assim dividida,
ainda sonhá-la
sempre maior.

Confinado à treva
que em minha pele acende
o rude lume de seu horror
- e tortura.

Confinado a tanto
por tão pouco,
ou a nada, por alto preço,
sigo daqui nesta esperança
- nesta certeza -
de que se ilumina
o mundo, lá fora,
numa aventura bem melhor.

EPIGRAMA 9


EPIGRAMA 9
(Cecília Meireles)

O vento voa.
a noite toda se atordoa,
a folha cai.

Haverá mesmo algum pensamento
sobre essa noite? sobre esse vento?
sobre essa folha que se vai?

NOITE DESMEDIDA


NOITE DESMEDIDA
(Anibal Beça)

Por quem se fez a noite do meu canto
fosse talvez pastor dessa ocarina
de muitos sons vibráteis como pranto
de partitura agônica e ferina

em que a medida exata principia
no labirinto negro - infinda hora.
Inevitável noite que em si é dia
mesmo sabendo raio dessa aurora

há de sangrar a inversa tessitura:
rubro poente - líquida ferida
a refletir a dor de tanta agrura

nesses perdidos traços que na vida
vão se forjando em forma de escritura
para a amplidão da noite desmedida.

sábado, 14 de julho de 2012

FRAGMENTOS



Fragmentos de estrelas...
Dançam os jogos de luz
no escuro da noite.

Delores Pires,
in O Livro dos Haicais

quinta-feira, 12 de julho de 2012

NOTURNO




Andam passos abolidos
pela amurada da lua:

boia o endereço no fundo
da alegoria – não eras;

candelabros esculpidos
com substâncias de lua...

Cancelo encontros com o mundo,
boio em mim mesmo – não eras.


Colombo de Sousa
In: Antologia Poética

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A NOITE


A NOITE
(Julia da Costa)

Brilha o céu, mas em vão soluça de brada
A terra ansiosa, com pueril receio!
É densa a treva; nessa paz calada
Funda tristeza nos oprime o seio!

Tudo fenece, embaixo da orvalhada
Repousa o campo de perfumes cheio!
Negro é o mar, a floresta sossegada,
Dormem as aves da espessura em meio!

Embalde a noite traiçoeira e linda
Enche de encanto os bosques e atalhos,
E, enquanto de fulgor o espaço alinda,

Seu manto enfeita de gentis orvalhos:
Mentem os ermos na amplidão infinda!
Mentem as flores a tremer nos galhos!



SONETO NOTURNO


SONETO NOTURNO
(Ruy Espinheira Filho)

Penso na noite como um rio profundo
e lembro coisas deste e de outro mundo.
Outros mundos, aliás, que a vida é vasta
como diversa. E mesmo assim não basta,

o que nos faz tecer ainda outras vidas
nas nuvens da alma, e que nos são vividas
com tanta força quanto as outras mais,
em seus sonhos de agora e de jamais

(ou melhor: com mais força, pois que estamos
ainda mais vivos no que nos sonhamos).
Penso na noite como um mar sem fim

quebrando sombras sobre o cais de mim.
E , enfim, sem esperanças e sem prece,
pressinto a noite que não amanhece.

NOITES AMADAS


NOITES AMADAS
(Auta de Souza)

Ó noites claras de lua cheia!
Em vosso seio, noites chorosas,
Minh’alma canta como a sereia,
Vive cantando n’um mar de rosas;

Noites queridas que Deus prateia
Com a luz dos sonhos das nebulosas,
Ó noites claras de lua cheia,
Como eu vos amo, noites formosas!

Vós sois um rio de luz sagrada
Onde, sonhando, passa embalada
Minha Esperança de mágoas nua...

Ó noites claras de lua plena
Que encheis a terra de paz serena,
Como eu vos amo, noites de lua!

FERNANDO PESSOA



São velhas as estrelas, e elas são
Grandes. Velho e pequeno é o coração,
E contém mais do que as estrelas todas,
Sendo, sem espaço, mais que a imensidão.

Fernando Pessoa,
in Poemas Portugueses
Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc.XXI

terça-feira, 10 de julho de 2012

POEMA SONHADO



Se não for pela poesia, como crer na eternidade?
Os ossos da noite doem nos mortos.
A chuva molha cidades que não existem.
O silêncio punge em cada ser acordado pelos cães invisíveis
do assombro.
Os ossos da noite doem nos vivos.
A escuridão lateja como um seio.
E uma voz (de onde vem?) repete incessante, incessantemente:
Se não for pela poesia, como crer na eternidade.

Alphonsus de Guimaraens Filho

sábado, 7 de julho de 2012

VAN GOGH



“Não tenho certeza de nada,
mas a visão das estrelas me faz sonhar.”

Van Gogh

sexta-feira, 6 de julho de 2012

LITANIA DAS HORAS MORTAS




Por estas horas de silêncio e solidão,
Eu gosto de ficar só com o meu coração.
É nestas horas de prazer quase divino
Que eu me sinto feliz com o meu próprio destino.

Por estas horas é que a cisma me conduz
Por estradas de treva e caminhos de luz.

É nestas horas, quando em êxtase medito,
Que sinto em mim a nostalgia do infinito.

Por estas horas, quando a sombra estende os véus,
A fé me leva além dos mais remotos céus.

É nestas horas de tristeza e de saudade
Que desperta em meu ser a ânsia da Eternidade.

Por estas horas, minhas naus ousam partir
Para Istambul, para Golconda, para Ofir...

É nestas horas, Noite amiga, em teu regaço,
Que eu me difundo pelo Tempo e pelo Espaço.

Por estas horas eu somente aspiro ao Bem,
Que em vida se tornou minha Jerusalém.

É nestas horas, quando o espírito descansa,
Que me depões na fronte o teu beijo, Esperança!

Por estas horas é que eu sinto florescer,
Como os astros no céu, o jardim do meu ser,

É nestas horas de quietude que deponho,
Ó Noite! em teu altar, minha lâmpada — o Sonho.

Por estas horas é que eu gosto de sonhar,
Para ter ilusões brancas como o luar.

É nestas horas de mistério e beatitude
Que a Glória me fascina e a Poesia me ilude.

Por estas horas de tranquila e doce paz,
Quanta serenidade o espírito me traz!

É nestas horas, quando a treva se constela,
Que ouço o teu canto nas estrelas, Filomela!

Por estas horas, a minh'alma anseia por
Teu encanto, Ventura! e teu engano, Amor!

É nestas horas de tristeza e esquecimento
Que eu gosto de ficar só com o meu pensamento.

Por estas horas eu me julgo Parsifal
Para ir pela renúncia à conquista do Graal.

É nestas horas que, como um eco profundo,
Repercute no meu o coração do mundo.

Por estas horas transitórias e imortais
Se desvanecem minhas dúvidas fatais.

É nestas horas de harmonia indefinida
Que eu tento decifrar o teu enigma, Vida!

Por estas horas, meu instinto morre, com
A intenção de ser justo, o anseio de ser bom.

É nestas horas de fantástico transporte
Que eu busco interrogar a tua esfinge, Morte!

Por estas horas, eu me enlevo assim, porque
Vela no lodo humano a luz que tudo vê...

Por tuas horas silenciosas, benfazejas,
Deusa da Solidão, Noite! bendita sejas!


Da Costa e Silva,
in Poesias Completas

MONTANHAS DENTRO DA NOITE



O lago está apagado,
escuro dorme o canavial
a resmungar em sonho.
Espalham-se terríveis sobre a terra
as longas ameaças das montanhas:
elas não têm descanso,
respiram fundo e ficam
umas de encontro às outras apertadas,
num surdo respirar,
carregadas de forças abafadas
sem remissão numa paixão insaciada.

Hermann Hesse

quarta-feira, 4 de julho de 2012

LUA CHEIA




Quando o céu todo se enfeita.
Para uma paz satisfeita
E o mundo inteiro se deita
Nos braços da escuridão,
Aparece a lua cheia,
A fulgurante candeia
Que pelo espaço vagueia,
Clareando a imensidão!

Sutil e cariciosa,
Dentro da nuvem garbosa,
Ela se eleva ditosa,
Num soberbo alumbramento!
É o espelho da beleza,
Refletindo a natureza,
No seu trono de princesa
Do salão do firmamento!

O céu – lindos alabastros!
Vive marcado de rastros
Da enamorada dos astros
E poetisa do azul!
Quando ela passa sombria,
Distribuindo alegria
E recitando poesia
Para o Cruzeiro do Sul!

E na sua claridade
Que há tanta serenidade,
Existe a sublimidade
Da transparência de um véu...
A lua que algo retrata,
Jogando luz sobre a mata,
Parece um olho de prata
No rosto imenso do céu!

JANSEN FILHO
In: (Obras Completas)

terça-feira, 3 de julho de 2012

AO LUAR



Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha táctil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o espaço com a minha plenitude!

Augusto dos Anjos

NOITE SONORA


(Pintura de Albert Bierstadt)

NOITE SONORA
(Olegário Mariano)

Anoiteceu. Pelas montanhas veio
Lentamente o crepúsculo caindo ...
O céu, redondo e claro como um seio,
Ficou, de lindo que era, inda mais lindo.

O vale abriu-se em pirilampos cheio,
Luzindo aqui, e ali tremeluzindo ...
No regaço da treva, úmido e feio,
A natureza adormeceu sorrindo ...

As cigarras, na sombra, se calaram:
As árvores no bosque farfalharam
Na esperança de ouvi-Ias e de vê-las.

Caiu de todo a noite quieta ... Agora,
O céu parece uma árvore sonora
De cigarras cantando nas estrelas ...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

NOCTURNO



Devagar, devagar... A noite dorme
e é preciso acordar sem sobressalto.
Sob um manto de sombra, denso, informe,
o mar adormeceu a sonhar alto.

Devagar, devagar... O rio dorme
sobre um leito de areias e basalto...
Malhada pela neve a serra enorme
parece um tigre a preparar o salto.

E dorme o vale em flor. Dormem as casas.
Nenhum rumor. Nenhum frémito de asas.
Nada perturba a noite bela e calma.

E dormem os rosais, dormem os cravos...
Dormem abelhas sobre o mel dos favos
e dorme, na minha alma, a tua alma.

Fernanda de Castro 

A MULHER DENTRO DA NOITE



Foge do seio da noite
Um perfume mais penetrante, mais forte,
Mais ácido e insinuante
Do que o das flores nascidas da morte.
Cai de dentro das estrelas tranqüilas
Uma luz tão cintilante
Vazando as minhas pupilas
Que chego a pensar contente que o fim não esta mui distante.
Passam roçando meu rosto, fatigados, os últimos ventos
E deles meus ouvidos tiram
Cânticos e lamentos.
É o momento em que as pastagens do deserto são regadas pela lua
E as colinas se adornam de alegria,
É o instante em que meu espírito deixa que sobre meu corpo influa
A sensação do nada e o tudo da poesia.


Adalgisa Nery
In: Mundos Oscilantes