quarta-feira, 31 de outubro de 2012

QUEM ÉS TU?



Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

QUERO SER O POETA DA NOITE



Noite, velada noite,
faz-me teu poeta!
Deixa-me entoar as canções
de todos aqueles
que, pelos séculos dos séculos,
se sentaram em silêncio
à tua sombra!
Deixa-me subir ao teu carro sem rodas
que corre silencioso de mundo a mundo,
tu que és rainha do palácio do tempo,
escura e formosa!

Quantos entendimentos ansiosos
penetraram mudos no teu pátio,
vaguearam sem lâmpada pela tua casa,
à tua procura!
Quantos corações, que a mão do Desconhecido
atravessou com a flecha da alegria,
romperam em cânticos
que sacudiam a tua sombra
até aos alicerces!

Faz-me, ó noite,
o poeta destas almas despertas
que contemplam maravilhadas,
à luz das estrelas,
o tesouro que encontraram
de repente;
o poeta do teu insondável silêncio,
ó noite!

Rabindranath Tagore

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

ENTARDECR NA PRAIA DA LUZ




Espreguiçados, os ramos
das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
de buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita.


Albano Martins,
in "Castália e Outros Poemas

GOSTARIAS DE DECIDIR...



...

Gostarias de decidir por ti.
O sol nunca se atrasa. A noite chega sempre a horas
certas.
Tu adiantaste o relógio com receio de adormecer mais
cedo ou de não chegar a tempo à festa do dia seguinte.
Não te perguntaram se querias vir e alguém marcou, sem
teu consentimento, a hora da chegada. Gostarias de ser tu
a marcar a partida.
Precisas de inventar um relógio onde o tempo não
decline e um leito onde o sol não adormeça. um firmamento
onde tu e ele sejam as únicas estrelas.


Albano Martins
 
de Escrito a Vermelho,

terça-feira, 23 de outubro de 2012

CLARICE LISPECTOR



“Minha força está na solidão.
 Não tenho medo nem de chuvas tempestivas
 nem de grandes ventanias soltas, pois eu
 também sou o escuro da noite.” 

―Clarice Lispector

domingo, 21 de outubro de 2012

LUA ADVERSA



Tenho Fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases ,como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles 

CORCOVADO



Montanha ilustre
límpida no cristal da madrugada,
escorrendo ouro fluido
nas grandes horas acesas,
serena e distante no crepúsculo
transfigurada, na noite
em mágico Thabor.

Não conhecem o teu total esplendor
os que não viram, como eu vi,
descerem as estrelas
e dançarem, perdidas,
em torno ao teu cristo branco
uma ronda sem tempo.

Tasso Da Silveira
in Poemas de Antes

sábado, 20 de outubro de 2012

A SERENATA




É a noite lenta,
sonolenta
a grande noite tropical...
O amor põe brotos,
como o lotus,
à flor do lago espiritual.

É a noite clara
feita para
O Bem-Amado e para mim:
A noite é um leito
todo feito
de linhos alvos e marfim...

Branco e tristonho,
no meu sonho,
ó Todo-Amado, és meu luar:
o luar de neve,
suave e leve,
da lua que há no meu olhar...

Entre os teus dedos
há segredos...
E as minhas mãos fanadas são
aves noturnas,
taciturnas,
fazendo ninho em tua mão

Os meus sentidos,
distendidos
ao teu contacto encantador,
são cinco cordas
com que acordas
no bojo da alma a voz do amor...

É a noite lenta,
sonolenta
a grande noite tropical...
O amor põe brotos,
como o lotus,
à flor do lago espiritual.


Guilherme de Almeida 

NOCTURNO


 
Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento -
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem;
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre do Ideal que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém.

Antero de Quental,
Sonetos

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

NOITE



Acabo de apagar a minha vela:
pela janela aberta a noite vem,
me abraça com doçura, e me permite
ser amigo e irmão dela.

Sofremos ambos da mesma saudade:
cheio de augúrios nosso sonho vai,
e cochicamos sobre velhos tempos
em casa de nosso pai.

Hermann Hesse

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

AS MINHAS NOITES




As minhas noites são negras,
Negras das insónias,
Dos pensamentos arbóreos
Que se sucedem, saltitantes,
Sem atingir o final.

Negras,
Como negras são as vielas das cidades,
Onde teimam em vaguear
Seres errantes.

As minhas noites
São cor de cinza,
De um cinza desbotado e desfocado,
Como fotos velhas, e recordações...

As minhas noites
São amarelas,
Amarelas como as luzes e letreiros de néon,
Como o ouro sagrado
Das minhas ambições,
Como os pensamentos intensos e febris
Que por vezes dormem comigo no leito.

As minhas noites
São vermelhas,
Vermelhas como os desejos imensos
Encarcerados no peito,
Como o sangue que jorra, que pulsa, que corre!

Nas minhas noites algo vive
Que, à luz do dia,
Morre...

As minhas noites
São ventos
E são marés,
São flores,
São primavera.
Nas minhas noites tudo é
Eterno compasso de espera...

As minhas noites
São risos,
São choros,
Num tempo por desvendar,
São ciclones, turbilhões,
Mistérios por decifrar!

As minhas noites
São sede,
Constante,
Por satisfazer.
E há nelas uma vaga ideia,
Silhueta de mulher...

As minhas noites são lentas,
Absurdas,
Vazias,
Frias,
Até que o sono vier...!

Pensamento enevoado
Que depois se fecha a trancas,
As minhas noites, horas longas,
E nelas as angústias tantas!

As minhas noites são negras...
As minhas noites são brancas!


Luís Filipe Carvalho,
Um Outro Olhar,

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

''DORME, RUAZINHA....''





Dorme, ruazinha... É tudo escuro...
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos...

Dorme... Não há ladrões, eu te asseguro...
Nem guardas para acaso persegui-los...
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos...

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão...
Dorme, ruazinha... Não há nada...

Só os meus passos... Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração...


Mario Quintana
NOVA ANTOLOGIA POÉTICA

terça-feira, 2 de outubro de 2012

NOTURNO I



Estrelas pendem da noite,
videira delirante.
Coroada de espelhos e ametistas
transmutas a carne em nudez

guardiã, sacerdotisa,

nos vales da distância
rumina em silêncio
teu rebanho tranquilo.


Dora Ferreira da Silva,
in Poesia Reunida

NOTURNO II



Nossos olhos nos pertencem –
não o dia
Amor não nos pertence
nem a morte.
Apenas pousam na pérola mais fina.
Desce o luar
no flanco de rios precipitados
folhas se alongam
caules estremecem.

A noite já desfere
seu punhal de trevas.
Dora Ferreira da Silva,
in Poesia Reunida

NOTURNO III



Pétala da noite
pálpebra fixa dos que olham para sempre a morte
nave perdida e sem memória
pérola marinha
arremessadas às águas.

Rosa intranqüila
pólen do amor sem pouso
mênade errante, os longos cabelos torturados,
tu, sublevada, que me prendeste em teu anel de insônias
e que desfias no espaço
o claro colar das águas:
por que acordas no meu peito a sede dos desertos
e me aprisionas, pássaro, em teu arco de prata?


Dora Ferreira da Silva,

in Poesia Reunida

SUBITAMENTE



Subitamente,
anoiteceu em mim.

Pungiu-me a dor de viver.

Helena Kolody
in Correnteza