segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

'Apontamento'



Ó noite, ó noite, ó noite!
Luar e primavera
e os telhados cobrindo
sonhos que a vida gera!

Subo por essas horas
solitária e sincera,
e encontro, exausta e pura,
minha alma que me espera.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa


terça-feira, 4 de junho de 2013

EMILIO KEMP


[...]
Olhei o céu: Lá estavam todas elas
A tremer, a brilhar! ...
Por certo riam
Da minha ingênua confusão ...
Que importa! ...
As estrelas do céu também se apagam.
 
Poeta:
Terra e céu cabem juntos
Dentro do mesmo sonho e da mesma ilusão ...
 
Emilio Kemp

in Cantos de Amor ao Céu e à Terra

PROCURANDO ESTRELAS



Faz frio! vou em busca de agasalho,
oh! lágrimas... (e luto por contê-las!)
olhos abertos, procurando estrelas,
sigo, e na estrada, minha mágoa espalho.

As flores choram lágrimas de orvalho,
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las,
vejo toda a criação chorando pelas
folhas a balançar em cada galho.

Sigo tristonho... Baila pelo espaço
o lamento das cousas que ficaram
sem um amor, sequer, para entendê-las.

Deixo um pouco de dor por onde passo...
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram
ante o esplendor do riso das estrelas!


Lago Burnett
In Estrela do Céu Perdido

segunda-feira, 29 de abril de 2013

ORAÇÃO DA NOITE



Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,
No infecundo amargor da solitude:
As dores,  - embalei-as nos meus braços,
Como alguém que embalasse a juventude...

Acendi luzes, desdobrando espaços,
Aos olhos sem bondade ou sem virtude;
Consolei mágoas, tédios e fracassos
E fiz, a todos, todo o bem que pude!

Que o sonho deite bençãos de ramagens
E névoas soltas de distância e ausência
Na minha alma, que nunca foi feliz.

Escondendo-me as tácitas voragens
De males que me deram, sem consciência.
Pelos míseros bens que sempre fiz!...

Cecília Meireles

sexta-feira, 26 de abril de 2013

EPIGRAMA



Ó lua cheia,
ocular de um longo telescópio branco
que devassa o país dos amores platônicos...

João Guimarães Rosa,
In Magma

domingo, 21 de abril de 2013

EM PLENO LUAR



Em pleno luar
passeei por toda noite
em torno do lago.

Delores Pires
In: O livro dos Haicais

sábado, 13 de abril de 2013

SOLIDÃO



Imensas noites de inverno,
com frias montanhas mudas,
e o mar negro, mais eterno,
mais terrível, mais profundo.

Este rugido das águas
é uma sem forma:
sobe rochas, desce fráguas,
vem para o mundo, e retorna...

E a névoa desmancha os astros,
- terra e céu - guardando nome.
E os seus longos sonhos sábios
geram a vida dos homens.

Geram os olhos incertos,
por onde descem os rios
que andam nos campos abertos
da claridade do dia.


Cecília Meireles,
in Viagem

quarta-feira, 10 de abril de 2013

NOITE



A noite, com sua 
partitura de mistérios
faz música.

Fecho os olhos
e ouço o som
do universo
como se fosse
um zumbido
de anseios e luz.

Caminho sobre 
a linha invisível
dos desejos.

Roseana Murray,
do livro No Cais do Primeiro Amor

quinta-feira, 28 de março de 2013

LUAR



“A lua madura
Rola, desprendida,
por entre os musgos
das nuvens brancas...
Quem a colheu,
quem a arrancou
do caule longo
da Via-Láctea?...”


Guimarães Rosa

domingo, 24 de março de 2013

quinta-feira, 21 de março de 2013

NOITE EXAUSTA



Morde o vento da noite
uma queixa abafada
pelas folhas. No pó
caem gotas pesadas.

Nos rostos muros brotam
musgos e samambaias.
Anciãos silenciosos
se agacham nos umbrais.

Mãos retorcidas pousam
sobre os joelhos duros,
entregues ao descanso
enquanto vão murchando.

Enormes gralhas voam
por sobre o cemitério.
Samambaias e musgos
nos rasos morros medram.


Hermann Hesse
In Andares

sábado, 16 de março de 2013

FESTA NOTURNA



O sol
vestiu o entardecer
com rendas douradas,
violetas e azuis...
Para a festa da noite,
a lua cheia
transformou-se
em prateada medalha
e enfeitou
o peito redondo do infinito...

Adélia Maria Woellner

quinta-feira, 14 de março de 2013

A COMPANHEIRA



A lua parte com quem partiu e fica com quem ficou. E,
pacientemente, consoladoramente, aguarda os suicidas
no fundo do poço.

Mario Quintana
In: Sapato Florido

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

PAISAGEM NOTURNA



A sombra imensa, a noite infinita enche o vale . . .
E lá do fundo vem a voz
Humilde e lamentosa
Dos pássaros da treva. Em nós,
— Em noss'alma criminosa,
O pavor se insinua . . . 
Um carneiro bale.
Ouvem-se pios funerais.
Um como grande e doloroso arquejo
Corta a amplidão que a amplidão continua . . .
E cadentes, metálicos, pontuais,
Os tanoeiros do brejo,
— Os vigias da noite silenciosa,
Malham nos aguaçais.

Pouco a pouco, porém, a muralha de treva
Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça
Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleva
A sombria massa 
Das serranias.

O plenilúnio via romper ... Já da penumbra
Lentamente reslumbra
A paisagem de grandes árvores dormentes.
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias,
Tintas deliqüescentes
Mancham para o levante as nuvens langorosas.

Enfim, cheia, serena, pura,
Como uma hóstia de luz erguida no horizonte, 
Fazendo levantar a fronte 
Dos poetas e das almas amorosas,
Dissipando o temor nas consciências medrosas 
E frustrando a emboscada a espiar na noite escura,
— A Lua
Assoma à crista da montanha.
Em sua luz se banha
A solidão cheia de vozes que segredam . . .

Em voluptuoso espreguiçar de forma nua
As névoas enveredam 
No vale. São como alvas, longas charpas
Suspensas no ar ao longe das escarpas.
Lembram os rebanhos de carneiros 
Quando, 
Fugindo ao sol a pino,
Buscam oitões, adros hospitaleiros
E lá quedam tranqüilos ruminando . . . 
Assim a névoa azul paira sonhando . . .
As estrelas sorriem de escutar
As baladas atrozes
Dos sapos. 
                                           E o luar úmido . . . fino . . .
Amávico . . . tutelar . . .
Anima e transfigura a solidão cheia de vozes . . ."

- Manuel Bandeira


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

ESVAZIAMENTO



Cidade grande:
dias sem pássaros, 
noites sem
estrelas. 

Mario Quintana
In: 'Na volta da Esquina'

ROMANTISMO



Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pousá-lo no vento!...

Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível -
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de lágrimas e luar!

Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormente e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado...

Quem tivesse um amor, sem dúvida nem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria...
Ah! Quem tivesse... (Mas quem tem? Quem teria?)


Cecília Meireles
in Mar Absoluto e outros poemas 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

CARREGO PESO DA LUA



Carrego o peso da lua,
Três paixões mal curadas,
Um saara de páginas,
Essa infinita madrugada.

Viver de noite
Me fez senhor do fogo.
A vocês, eu deixo o sono. 
O sonho, não.
Esse, eu mesmo carrego.

Paulo Leminski

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

NOITE ESCANDINAVA



Num instante,
o tecto se torna céu
e o escuro se torna leito.
A noite é escassa
para tanta saudade.

MIA COUTO,
in "Tradutor de chuvas"
 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

VIRGÍNIA WOOLF



“O meu maior desejo
sempre foi o de aumentar a noite
para a conseguir encher de sonhos"

Virginia Woolf

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

CITAÇÃO



A noite é a nossa dádiva de sol
aos que vivem do outro lado da Terra.

Carlos de Oliveira
in Trabalho Poético

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

'XII PRECE'




Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil, 
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda. 
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode ergue-la ainda. 

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia-
Com que a chama do esforço se remoça, 
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa! 


Fernando Pessoa
in 'Mensagem'

CANÇÃO DA JANELA ABERTA



Passa nuvem, passa estrela,
Passa a lua na janela...

Sem mais cuidados na terra,
Preguei meus olhos no Céu.

E o meu quarto, pela noite
Imensa e triste, navega...

Deito-me ao fundo do barco,
Sob os silêncios do Céu.

Adeus, Cidade Maldita,
Que lá se vai o teu Poeta.

Adeus para sempre, Amigos...
Vou sepultar-me no Céu!

- Mário Quintana

BEBO SOZINHO AO LUAR



Bebo sozinho ao luar
Entre as flores há um jarro de vinho.
Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo.
Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua:
com ela e a minha sombra, já somos três pessoas.
Mas a lua não bebe, e a minha sombra imita o que faço.
A sombra e a lua, companheiras casuais,
divertem-se comigo, na primavera.
Quando canto, a lua vacila.
Quando danço, a minha sombra se agita em redor.
Antes de embriagados, todos se divertem juntos.
Depois, cada um vai para a sua casa.
Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis:
nossos encontros são na Via Láctea.."

Li Po
(Tradução de Cecília Meireles)

REFÉM DA LUA



Sou refém da lua cheia
ela entra pelo quarto
conhece-me os desejos
os beijos guardados
as sombras e crateras do meu cativeiro
sou refém da meia lua
ela me sabe os pedaços
tristezas e segredos
invade-me à madrugada
assiste o amor arder
sem endereço
sou refém de mim
a lua é pretexto

Alice Ruiz

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

HINO À NOITE



Ó noite, eu te desejo, e anseio o teu abraço
macio como o luar, quieto como o jazigo.
A fadiga me esvai, domina-me o cansaço,
como um boêmio feliz eu vim dormir contigo.
De sonho em sonho andei.Fui poeta, fui mendigo.
Corri atrás do tempo e me perdi no espaço
e vi se desfazer meu pensamento antigo
e em sangue transformar-se a sombra do meu passo.
Um dia, a procurar-te, olhei para o poente:
na estrada solidão da tarde, impertinente,
um pássaro de sol crepusculava a esmo.
Então eu te encontrei e, em meu triste abandono,
meus olhos disfarcei na volúpia do sono
e caminhei cantigo em busca de mim mesmo.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

EVOCAÇÃO



Oh Lua voluptuosa e tentadora, 
Ao mesmo tempo trágica e funesta, 
Lua em fundo revolto de floresta 
E de sonho de vaga embaladora. 

Langue visão mortal e sedutora, 
Dos Vergéis sederais pálida giesta, 
Divindade sutil da morna sesta 
Da lasciva paixão fascinadora. 

Flor fria, flor algente, flor gelada 
Do desconsolo e dos esquecimentos 
E do anseio, da febre atormentada. 

Tu que soluças pelos céus nevoentos 
Longo soluço mágico de fada, 
Dá-me os teus doces acalentamentos! 

Cruz e Souza 


FLORES DA LUA




Brancuras imortais da Lua Nova
Frios de nostalgia e sonolência...
Sonhos brancos da Lua e viva essência
Dos fantasmas noctívagos da Cova.

Da noite a tarda e taciturna trova
Soluça, numa tremula dormência...
Na mais branda, mais leve florescência
Tudo em Visões e Imagens se renova.

Mistérios virginais dormem no Espaço,
Dormem o sono das profundas seivas,
Monótono, infinito, estranho e lasso...

E das Origens na luxúria forte
Abrem nos astros, nas sidéreas leivas
Flores amargas do palor da Morte.

Cruz e Souza 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

VÔO...



Os passos da noite...
Deixam rastros nos desvãos de minha alma, 
despertando consteladas esperanças em minha solidão.
Os passos da noite, 
macios, etéreos, 
em cálidas fragrâncias embebidos, 
me pensam alvoradas de desejos do amanhã.
E uma ilusão enluarada me abrasa,
me veste com asas de vontade renascida.
Porém eu não sei o destino do vôo.
 
- Patricia Neme –

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

QUANDO EU MORRER



Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!

Quero ficar com alguns poemas tortos 
Que andei tentando endireitar em vão...
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!...

Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr de sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas...

E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto...


Mario Quintana

domingo, 6 de janeiro de 2013

UM LUGAR DE SOBREVIVÊNCIA



Apesar de tudo, a noite
continua a ser um lugar de sobrevivência,
a contraluz sensual de todas as rotinas,
um barco acostado ao largo dos astros.
Há prosas de fascínio a assinalar improvisos
nas pálpebras da manhã
quando, à mercê do acaso,
um abraço é o secreto anúncio de uma festa.

Graça Pires,
in Conjugar afectos

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A NOITE VEM BUSCAR SECRETAMENTE



A noite vem buscar secretamente
através das dobras das cortinas
brilho de sol esquecido em teu cabelo.
Olha, nada mais quero que não seja
ter entre as minhas tuas mãos , e ser
tranqüilo e bom, todo cheio de paz.

Fazes-me crescer a alma que estilhaça
o dia-a-dia em cacos; e assim ganha
uma amplitude que é milagre teu:
Nos seus molhes de aurora vão morrer
as primeiras ondas de infinidade.

Rainer Maria Rilke

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

AVE DA ESPERANÇA



Passo a noite a sonhar o amanhecer.
Sou a ave da esperança.
Pássaro triste que na luz do sol
Aquece as alegrias do futuro,
O tempo que há-de vir sem este muro
De silêncio e negrura
A cercá-lo de medo e de espessura
Maciça e tumular;
O tempo que há-de vir - esse desejo
Com asas, primavera e liberdade;
Tempo que ninguém há-de
Corromper
Com palavras de amor, que são a morte
Antes de se morrer.

Miguel Torga
In ‘Obra Completa’

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A MINHA ESTRELA



E eu disse - Vai-te, estrela do Passado!
Esconde-te no Azul da imensidade,
Lá onde nunca chegue esta saudade,
- A sombra deste afeto estiolado.

Disse, e a estrela foi p'ra o Céu subindo,
Minha'alma que de longe a acompanhava,
Viu o adeus que do Céu ela enviava,
E quando ela no azul foi-se sumindo

Surgia a Aurora - a mágica princesa!
E eu vi o Sol do Céu iluminando 
A catedral da Grande Natureza.

Mas a noute chegou, triste, com ela
Negras sombras vtambém foram chegando,
E nunca mais eu vi a minha estrela!

Augusto dos Anjos
In Poesia/Poemas Esquecidos

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

IDENTIDADE



Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento.

Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Têm maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.

Miguel Torga

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

SONETO DO ANJO



Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando…
Negros olhos as pálpebras abrindo…
Formas nuas no leito resvalando…

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!

Álvares de Azevedo

domingo, 25 de novembro de 2012

VESPERAL


Hora de benção, de perdão, de prece ...
E que, no entanto, é das que mais afligem ...
Entardecer ... O azul empalidece
como um rosto na agônica vertigem ...

Em breve a noite vai colher a messe
das estrelas ... E da cerúlea origem
a alma do vago sobre as almas desce
e as saudades para elas se dirigem ...

Morreu da luz o fulgurante império ...
O poente, como as ilusões perdidas,
os nossos sonhos vãos, se fez cinéreo ...

E sobre tantas ruínas, quando é noite,
virão chorar, nas horas esquecidas,
as cristalinas lágrimas da noite ...


José Lannes,

in Candeia

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

TEMAS E VOLTAS



Mas para que
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?

Mas para que
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto na noite?

Mas para que
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento,
Cheira a flor da noite?

Mas para que
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?

Manuel Bandeira

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

NOITE SELVAGEM



Entro na selva. A noite é espessa. De centenas
de pirilampos toda a mata se ilumina;
astros movem no espaço as rútilas antenas,
como insetos de luz, numa etérea campina.

Ergo ao céu, desço à terra a assombrada retina,
e ante as luzes astrais e ante as luzes terrenas,
a terra e o céu, o céu e a terra, julgo, apenas,
um céu que se distende, alonga e indetermina.

Em cima há tanta luz que o olhar erguido pasma!
Cada estrela parece um luminoso miasma
a medrar, a fulgir da treva na espessura.

e a noite tão negra e tão ampla, e tão densa,
é um pântano infinito, uma lagoa imensa,
a decompor-se em luz, a efervescer na altura.


Gilka Machado

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

ACORDANDO



Em sonho, às vezes, se o sonhar quebranta 
Este meu vão sofrer, esta agonia, 
Como sobe cantando a cotovia, 
Para o céu a minh’alma sobe e canta. 

Canta a luz, a alvorada, a estrela santa, 
Que ao mundo traz piedosa mais um dia... 
Canta o enlevo das cousas, a alegria 
Que as penetra de amor e as alevanta... 

Mas, de repente, um vento úmido e frio 
Sopra sobre o meu sonho: um calafrio 
Me acorda. — A noite é negra e muda: a dor 

Cá vela, como d’antes, ao meu lado.. 
Os meus cantos de luz, anjo adorado, 
São sonho só, e sonho o meu amor! 


ANTERO DE QUENTAL 
In Sonetos

domingo, 11 de novembro de 2012

PARA QUE VENHAM


Uma só vela basta. Sua luz mortiça
Uma atmosfera mais propícia há de compor,
Quando as sombras vierem, as sombras do amor.
Uma vela somente. Que esta noite o quarto
Muita luz não ostente. Entregue ao devaneio,
E às sugestões do ambiente, e dessa luz tão pouca
Ao devaneio assim entregue, hei de sonhar,
Para que as sombras venham, as sombras do amor.


Konstantinos Kaváfis 

sábado, 10 de novembro de 2012

LUAR




De brejo em brejo,
os sapos avisam:
- A lua surgiu!...

No alto da noite
as estrelinhas piscam,
puxando fios,
e dançam nos fios
cachos de poetas.

A lua madura
rola, desprendida, 
por entre os musgos
das nuvens brancas...
Quem a colheu,
quem a arrancou
do caule longo
da Via-Láctea?...

Desliza solta...

Se lhe estenderes
tuas mãos brancas,
ela cairá...

João Guimarães Rosa
In Magma

terça-feira, 6 de novembro de 2012

PÓSTUMA



Noite fechada, lúgubre, sombria.
Céu escuro, tristíssimo, nevoento,
Relâmpagos, trovões, água, invernia
E vento e chuva, e chuva e muito vento!

Abro um pouco a janela, úmida e fria;
Quedo a ver e a escutar, por um momento
O rugido feroz da ventania
E o rasgar dos fuzis no firmamento.

Quero vê-la no céu... e o céu escuro!
E, sem temer que chova e o vento açoite,
Abro mais a janela... abro, e murmuro:


Ah! talvez acalmasse o meu tormento,
— Se eu pudesse chorar, como esta noite!
— Se eu pudesse gemer, corno este vento!

Raul Machado

domingo, 4 de novembro de 2012

SONETO



Tivesse eu tua imóvel cintilância,
Estrela, não sozinho na infinita
Noite, a mirar, em longa vigilância –
Da natureza insone, ermo Eremita –
As águas móveis em seu mister santo,
Puro, de abluir humanos litorais,
Ou vendo o suave, recém-caído manto
Da neve sobre outeiros e aguaçais –
Não! mas ainda firme, ainda imutável
Sobre o peito da amada em floração,
Para sempre sentir seu pulso amável,
Desperto, sempre, em doce inquietação –
E o meigo, meigo sopro surpreender
E sempre assim viver – ou perecer.


John Keats

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

QUEM ÉS TU?



Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

QUERO SER O POETA DA NOITE



Noite, velada noite,
faz-me teu poeta!
Deixa-me entoar as canções
de todos aqueles
que, pelos séculos dos séculos,
se sentaram em silêncio
à tua sombra!
Deixa-me subir ao teu carro sem rodas
que corre silencioso de mundo a mundo,
tu que és rainha do palácio do tempo,
escura e formosa!

Quantos entendimentos ansiosos
penetraram mudos no teu pátio,
vaguearam sem lâmpada pela tua casa,
à tua procura!
Quantos corações, que a mão do Desconhecido
atravessou com a flecha da alegria,
romperam em cânticos
que sacudiam a tua sombra
até aos alicerces!

Faz-me, ó noite,
o poeta destas almas despertas
que contemplam maravilhadas,
à luz das estrelas,
o tesouro que encontraram
de repente;
o poeta do teu insondável silêncio,
ó noite!

Rabindranath Tagore

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

ENTARDECR NA PRAIA DA LUZ




Espreguiçados, os ramos
das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
de buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita.


Albano Martins,
in "Castália e Outros Poemas

GOSTARIAS DE DECIDIR...



...

Gostarias de decidir por ti.
O sol nunca se atrasa. A noite chega sempre a horas
certas.
Tu adiantaste o relógio com receio de adormecer mais
cedo ou de não chegar a tempo à festa do dia seguinte.
Não te perguntaram se querias vir e alguém marcou, sem
teu consentimento, a hora da chegada. Gostarias de ser tu
a marcar a partida.
Precisas de inventar um relógio onde o tempo não
decline e um leito onde o sol não adormeça. um firmamento
onde tu e ele sejam as únicas estrelas.


Albano Martins
 
de Escrito a Vermelho,

terça-feira, 23 de outubro de 2012

CLARICE LISPECTOR



“Minha força está na solidão.
 Não tenho medo nem de chuvas tempestivas
 nem de grandes ventanias soltas, pois eu
 também sou o escuro da noite.” 

―Clarice Lispector

domingo, 21 de outubro de 2012

LUA ADVERSA



Tenho Fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases ,como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles