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14 de mar. de 2013

A COMPANHEIRA



A lua parte com quem partiu e fica com quem ficou. E,
pacientemente, consoladoramente, aguarda os suicidas
no fundo do poço.

Mario Quintana
In: Sapato Florido

26 de fev. de 2013

ESVAZIAMENTO



Cidade grande:
dias sem pássaros, 
noites sem
estrelas. 

Mario Quintana
In: 'Na volta da Esquina'

8 de jan. de 2013

QUANDO EU MORRER



Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!

Quero ficar com alguns poemas tortos 
Que andei tentando endireitar em vão...
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!...

Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr de sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas...

E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto...


Mario Quintana

4 de out. de 2012

''DORME, RUAZINHA....''





Dorme, ruazinha... É tudo escuro...
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos...

Dorme... Não há ladrões, eu te asseguro...
Nem guardas para acaso persegui-los...
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos...

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão...
Dorme, ruazinha... Não há nada...

Só os meus passos... Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração...


Mario Quintana
NOVA ANTOLOGIA POÉTICA

12 de jun. de 2012

LOUCA


Súbito
Em meio àquele escuro quarteirão fabril
Das minhas mãos se escapou um pássaro maravilhoso
E eu te amei como quem solta um grito,
Ó Lua enorme
Incompreensível...
Por que sempre me espantas e me assustas, Louca,
Como se eu te visse sempre pela primeira vez?!

Mario Quintana
In Baú de Espantos

VIAGEM




O sono é uma viagem noturna:
o corpo horizontal no escuro
e no silêncio do trem, avança,
imperceptivelmente avança... Apenas
o relógio picota a passagem do tempo.
Sonha a alma deitada no seu ataúde:
lá longe
lá fora
no fundo do túnel,
há uma estação de chegada
(anunciam-na os galos agora)
há uma estação de chegada com a sua tabuleta ainda
toda orvalhada...
Há uma estação chamada...
AURORA!

Mario Quintana
In Baú de Espantos

NOTURNO II




Pensam que estou dormindo. Mas, do meu velívolo,
eu avisto a cidade.
Em cada janela acesa (umas poucas)
um poeta, noite alta, poetando...
Tu dirás que imagino coisas loucas!
Mas era assim que eram as coisas
nos tempos da primeira mocidade... Pouso
lá na torre da igreja.
Imobilizo-me.
Vês?
(ou estarei apenas sonhando
que faço um poema?)

Mario Quintana
In Baú de Espantos

A CASA FANTASMA



A casa está morta?
Não: a casa é um fantasma,
um fantasma que sonha
com a sua porta de pesada aldrava,
com os seus intermináveis corredores
que saíam a explorar no escuro os mistérios da noite
e que as luas, por vezes,
enchiam de um lívido assombro...
Sim!
agora
a casa está sonhando
com o seu pátio de meninos pássaros.
A casa escuta... Meu Deus! a casa está louca, ela não
sabe
que em seu lugar se ergue um monstro de cimento e
aço:
há sempre uma cidade dentro de outra
e esse eterno desentendido entre o Espaço e o Tempo.
Casa que teimas em existir
a coitadinha da velha casa!
Eu também não consegui nunca afugentar meus
pássaros.

Mario Quintana
In Baú de Espantos