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2 de out. de 2012

NOTURNO I



Estrelas pendem da noite,
videira delirante.
Coroada de espelhos e ametistas
transmutas a carne em nudez

guardiã, sacerdotisa,

nos vales da distância
rumina em silêncio
teu rebanho tranquilo.


Dora Ferreira da Silva,
in Poesia Reunida

NOTURNO II



Nossos olhos nos pertencem –
não o dia
Amor não nos pertence
nem a morte.
Apenas pousam na pérola mais fina.
Desce o luar
no flanco de rios precipitados
folhas se alongam
caules estremecem.

A noite já desfere
seu punhal de trevas.
Dora Ferreira da Silva,
in Poesia Reunida

NOTURNO III



Pétala da noite
pálpebra fixa dos que olham para sempre a morte
nave perdida e sem memória
pérola marinha
arremessadas às águas.

Rosa intranqüila
pólen do amor sem pouso
mênade errante, os longos cabelos torturados,
tu, sublevada, que me prendeste em teu anel de insônias
e que desfias no espaço
o claro colar das águas:
por que acordas no meu peito a sede dos desertos
e me aprisionas, pássaro, em teu arco de prata?


Dora Ferreira da Silva,

in Poesia Reunida