quarta-feira, 15 de agosto de 2012

TODAS AS ÁGUAS DORMEM



Há uma hora certa,
No meio da noite, uma hora morta,
Em que a água dorme. Todas as águas dormem:
No rio, na lagoa,
No açude, no brejão, nos olhos d’água,
Nos grotões fundos.
E quem ficar acordado
Na barranca, a noite inteira,
Há de ouvir a cachoeira
Parar a queda e o choro,
Que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
Todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
Fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
Nas placas da folhagem.
E adormece
Até a água fervida,
Nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
De torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
E chorando, a noite toda,
Porque a água dos olhos
Nunca tem sono...

Guimarães Rosa

2 comentários:

  1. Amalia Catarina , quero parabeniza-la por seus blogs .
    Trazem tudo o que nos faz bem : belos poemas , imagens significativas e muita delicadeza. Fico muito contente que partilhe conosco seus guardados . Mais alegre ainda me senti ao ve-la seguindo meu blog . Beijos
    Marisa

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  2. Oi Marisa obrigada pelo carinho.
    O mínimo que eu podia fazer era retribuir
    sua gentileza.
    Bjo.

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