quinta-feira, 30 de agosto de 2012

NOTURNO




É de noite: medito triste e só
à luz de uma candeia bruxuleante
e penso na algeria e nos enganos,
na velhice cansada,
na juventude audaz e petulante.

Penso no mar, talvez porque no ouvido
ouço o tropel feroz de suas ondas:
estou bem longe desse mar temido
do pescador que luta pela vida,
da pobre mãe que tão sozinha o espera.

Não penso apenas nisso, penso em tudo:
no pequenino inseto que caminha
no lamacento açude
e no arroio também que, serpenteando,
deixa correr a águas cristalinas...

E quando a noite chega, e tão escura
como boca-de-lobo, então me perco
em pensamentos cheios de amargura,
sombreando a minha mente
na ilimitada idade das lembranças.

Extingue-se a candeia: seus fulgores
semelham os espamos de agonia
de um morimbundo.Amarelentas cores
novo dia anunciam , e com elas
se esvaem minhas aladas utopias.

Pablo Neruda
In O Rio Invisível

ESPIRAL



A noite é um morcego manso
sobrevoando uma cidade quase adormecida,
tomando cada rua, cada casa,

como um cheiro adocicado de fruta
quase apodrecida que penetrasse uma casa,
ganhasse cada quarto, cada sala,

como cheiro morno de coisa morta
ainda há pouco se espalhando
por uma cidade quase entorpecida,

como uma noite que descesse sobre casas
mortas, como uma peste,
como se nunca houvesse havido dia.

A noite é um morcego morto.

Paulo Henrique Britto
In Liturgia da matéria

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

ANIQUILAMENTO



Impossível disfarçar e dizer que isso não é angústia.
A esta hora da noite qualquer sorriso murcharia nos lábios.
É inútil pôr esse brilho nos olhos e erguer os ombros.
A vida rolará indiferente,
ríspida, indiferente.
Precisas de um caminho? Ora, o melhor é ir derribando logo esses troncos,
arrancando os espinhos, chanfrando a terra, desviando o curso das águas,
e pensar, ah, sobretudo pensar
que, antes de depois de ti,
tudo, tudo está quieto,
estará quieto,
serenamente
quieto.



Emílio Moura

terça-feira, 21 de agosto de 2012

HORAS MORTAS




Horas mortas ... silêncio do luar
Descendo sobre as águas;
E os rochedos na sombra a meditar
E o vento adormecendo as misteriosas mágoas.

Horas mortas ... Fantástica paisagem ...
Ó bailado das sombras pelo chão!
É quando me aparece o luar da sua imagem
No sem luz que leva ao coração.

Horas mortas de sonho e de mistério,
Em que as almas e as coisas entristecem;
E os mortos, ao luar, no cemitério,
Se levantam da campa e os vivos adormecem ...

Horas mortas da noite, em que medito;
Paisagem da saudade ...
Horas mortas, perdidas no infinito,
Quando a vida se eleva e alcança a Eternidade ...


Anrique Paço D’Arcos
in "Poesias Completas"

sábado, 18 de agosto de 2012

PRANTO DE LUAR



No longo espasmo do silêncio, alegre e franca,
A alma dos ventos, ao luar, murmura e fala:
A sombra corre, e tu, lua formosa e branca,
Derramas pelo chão claras manchas de opala.

Eras mortas de amor! Ah! quem te dera tê-las!
Cessaria, de novo, o teu soluço aflito!
Eras em que, sonhando, a sós, sob as estrelas,
Tu passavas com ele através do infinito...

Mas, uma noite, o espaço todo ornado em festa,
Teu esposo partiu, enfim... (Quanto desgosto!)
E dessa desventura extreme ainda te resta
A grande palidez que te ilumina o rosto.

Partiu... Talvez que volte aos lares... Mas enquanto
Ele não volta, em vão o esperas nessa trilha;
Ficas pálida e triste, e choras; o teu pranto
Desce à terra e, ao descer, torna-se luz e brilha.

Chora, infeliz. O pranto as mágoas atenua.
Nunca te canses, dentre as nuvens, de chorar.
Se não chorasses, não teríamos, ó lua,
A poesia sem fim das noites de luar.

Francisca Júlia

 In "Esfinges"

À NOITE




todas as palavras são pretas
todos os gatos são tardos
todos os sonhos são póstumos
todos os barcos são gélidos
à noite são os passos todos trôpegos
os músculos são sôfregos
e a máscaras, anêmicas
todos pálidos, os versos
todos os medos são pânicos
todas as frutas são pêssegos
e são pássaros todos os planos
todos os ritmos são lúbricos
são tônicos todos os gritos
todos os gozos são santos

Antonio Carlos Secchin

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

TODAS AS ÁGUAS DORMEM



Há uma hora certa,
No meio da noite, uma hora morta,
Em que a água dorme. Todas as águas dormem:
No rio, na lagoa,
No açude, no brejão, nos olhos d’água,
Nos grotões fundos.
E quem ficar acordado
Na barranca, a noite inteira,
Há de ouvir a cachoeira
Parar a queda e o choro,
Que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
Todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
Fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
Nas placas da folhagem.
E adormece
Até a água fervida,
Nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
De torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
E chorando, a noite toda,
Porque a água dos olhos
Nunca tem sono...

Guimarães Rosa

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

PLENITUDE NOCTURNA




Junte-se à rósea luz
da lua no mar

a chama da candeia
de ler o júbilo

em linhas perfeitas.

Junte-se à plena paz
da lua no mar

o diamantino apuro
de uma só frase:

a alma em letra pura.


José Alberto de Oliveira

sábado, 11 de agosto de 2012

MARINHA




A lua aparece, 
Lutuosa, entre brumas,
E o oceano estremece,
Revolto em espumas.

Em viva limalha,
Rápido corisco
A altura retalha,
Num trêmulo risco

Em horridas guaias,
As vagas, num bando,
Se quebram nas praias,
Rolando... rolando...

Ergue-se numa tromba
Nos céus, de repente,
E o raio ribomba,
Formidavelmente!

Paul Verlaine

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Noites


Noites
(Patricia Neme)

Em todo entardecer escuto passos,
na estrada que se achega ao meu portão;
embora haja penumbra, vejo os traços
dos andarilhos... Deus! E quantos são!

Na casa, se assenhoram dos espaços,
percorrem cada palmo do meu chão.
Semblantes - de ventura tão escassos,
contemplam-me... E na dor me envolvo, então.

Porque nos olhos meigos dos meus sonhos,
o amor sulcou caminhos tão tristonhos,
onde apenas saudade floresceu!

À noite, em rito insano de agonia,
unidos, sonhos, eu... e a nostalgia...
Ninamos o que nos restou de teu.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

CANÇÃO DE ALTA NOITE



Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... — enquanto consente
Deus que a noite seja andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar — somente.
Não necessita de nada.


Cecília Meireles
in: Vaga Música